sábado, 4 de julho de 2020

O Regime de Metas de Inflação: Teoria


Acho interessante e talvez algum amigo da finansfera se interesse, texto escrito por mim, para uma cadeira da faculdade.

O Regime de Metas de Inflação se caracteriza como uma estratégia de condução da política monetária que possui como principal objetivo a estabilidade de preços. Até meados dos anos 1990 muitos países utilizavam o regime de câmbio fixo como ancora para reduzir e estabilizar a taxa de inflação, mas a instabilidade internacional e o crescimento das transações entre moedas fizeram com que o câmbio flexível fosse adotado, assim esses países perderam a ancora de controle inflacionário, e começam a ter problemas de inflação buscando alternativas para combate-la, para os monetaristas a ancora seria a quantidade de moeda.
Em 1936, Keynes nega três axiomas fundamentais do modelo clássico:
·         O nível de emprego é determinado de acordo com o princípio da demanda efetiva e não pela interação entre as curvas de oferta e demanda de trabalho;
·         Negação da lei de Say, que dizia que toda oferta cria sua própria demanda. Keynes dizia que a insuficiência de demanda efetiva pode determinar a ocorrência de crises de superprodução;
·         Neutralidade da moeda, a política monetária na visão dos clássicos não exerce impacto sobre as variáveis reais da economia, nível de emprego e renda. Keynes afirma o contrário, a política monetária é sim capaz de ter impacto sobre nível de emprego e renda, ou seja, a moeda não é neutra.
Com a Grande Depressão dos anos 1930, a inexistência de desemprego involuntário e a impossibilidade de ocorrer uma crise geral de superprodução, conceitos clássicos, são abandonados, após a Segunda Guerra Mundial, a visão clássica é reformulada fundindo elementos keynesianos e formando a escola neoclássica, isso deu à política monetária instrumento de sustentação dos níveis de  emprego, a política fiscal ganhou instrumentos de gerenciar a demanda agregada. Neste período, a partir de verificação empírica da existência do trade-off entre inflação e desemprego, incorporada na Curva de Phillips no modelo keynesiano.
   

Irving Fischer iniciou em 1926 os estudos dessa relação, mas somente em 1958 Phillips desenvolveu a sua visão, sobre a relação entre desemprego (μ) e taxa de inflação (π). Constatando a relação é não linear e inversa, conforme figura acima. A figura exemplifica que em uma situação com nível de desemprego de μ, a inflação seria de π. E em uma situação de desemprego μ* a inflação seria de π*. Dessa forma a curva de Phillips propõe um instrumento que em uma fase de crise econômica ou quando o desemprego é grande, bastava estimular a demanda agregada como consequência a elevação da inflação e a retomada e ou a diminuição do desemprego, porém a partir dos anos 1970 esse instrumento não gera os resultados esperados nos Estados Unidos. Então Milton Friedman, da escola de Chicago nega a eficácia do modelo e explicava que a principal causa da inflação era o aumento da quantidade de dinheiro na economia. Para ele no curto prazo, um aumento da oferta monetária produziria efeito na produção, mas apenas no curto prazo, mas no longo prazo a produção retornaria e o único efeito seria no nível de preços, reformulando a teoria clássica nos seguintes aspectos:
·         O conceito de taxa natural de desemprego em substituição ao pleno emprego;
·          A proposição de que a moeda é neutra no longo prazo, ainda que ela possa exercer impactos sobre variáveis reais no curto prazo.
E introduziu à curva de Phillips as expectativas adaptativas as pessoas formam suas expectativas sobre o que irá acontecer no futuro com base no que aconteceu no passado, ou seja, se utilizam do método indutivo para tomar suas decisões econômicas.        
Então os novos-clássicos introduzem os seguintes pressupostos:
·         Os agentes formam expectativas racionais;
·         Existe equilíbrio contínuo de mercado, com salários e preços reais flexíveis, ou seja, a economia sempre estará em seu nível ótimo de equilíbrio;
·         Em relação à Oferta Agregada, os agentes atuam de forma racional maximizadora ininterruptamente e suas decisões baseiam-se em avaliações dos preços relativos.
Junto com isso introduzem a ideia de expectativas racionais que diz que: os agentes econômicos utilizam toda a informação disponível sobre o atual comportamento e as previsões para o futuro da economia. Com base na experiência e nessas informações, os agentes antecipam de forma racional as atitudes e políticas futuras do governo, reagindo no presente em consonância com as expectativas formadas e anulando em algum grau a efetividade dessas políticas.
A principal diferença entre a expectativa adaptativa e a expectativa racional é que ao invés de os agentes formarem as expectativas com base no passado, agora eles formam com base em maximizar todas as informações disponíveis, os agentes moldam suas expectativas sobre o comportamento futuro das variáveis relevantes, como se tivessem todas as informações e conhecimento que as autoridades monetárias de como a economia funciona.
Para os novos clássicos a autoridade monetária deve conduzir a política monetária de forma clara e convincente para que se obtenha o controle da inflação sem custos para a sociedade.
O Regime de Metas de Inflação para funcionar é necessário o anúncio público de uma meta da inflação para um ou mais horizontes de tempo e é necessária a adoção de câmbio flexível, controle dos gastos públicos e ausência de outra ancora nominal. Além da independência de instrumentos de política monetária, o aumento da transparência das estratégias da política monetária, por meio de comunicação ao público e aos mercados a respeito dos planos, objetivos e decisões da autoridade monetária e o aumento da responsabilidade do BC para alcançar seus objetivos de inflação.
O Novo Consenso Macroeconômico (NCM) é a atual forma de condução de política macroeconômica seguida pelos Bancos Centrais de vários países, nesse modelo, o banco central tem o único objetivo de controlar a inflação, o RMI atua como um tipo de regra que foi teoricamente desenhado sob o arcabouço do NCM e funcionando como uma âncora nominal em que os ajustes da taxa de juros nominais visam conduzir a taxa de inflação para a meta preestabelecida e, dessa maneira, assegurar a estabilidade da economia no longo prazo.
O Regime de Metas de Inflação possui seis elementos principais. São eles:
1. O anúncio público de metas numéricas de médio prazo para a inflação;
2. Um compromisso firme institucional para a estabilidade de preços como o principal objetivo da política monetária;
3. Uma "estratégia de informação", onde muitas variáveis são utilizadas para decidir as configurações de variáveis políticas;
4. Maior transparência e abertura na implementação da política monetária, de modo a facilitar uma melhor comunicação com o público; 20
5. Aumento da responsabilidade do BC em relação ao cumprimento dos objetivos da inflação;
6. Como a utilização de metas de inflação como âncora nominal envolve comparar a meta anunciada para a inflação com a inflação prevista como a base para a tomada de decisões de política monetária.
Além disso para o Regime de Metas de Inflação dar certo são necessários que o país tenha um sistema financeiro solido, Banco Central tenha uma independência completa de instrumentos monetários para cumprir os objetivos de controle da inflação e câmbio flutuante. O Regime de Metas de Inflação está fundamentado nas seguintes premissas principais: a separação entre os fatores de custos associada a choques de oferta; e a existência de uma taxa natural de juros.   
As principais premissas do Regime de Metas de Inflação do Novo Consenso Monetário, são:
Separação entre os fatores reais e nominais: significa que caso ocorra um aumento da oferta de moeda, esse fato fica restrito à esfera monetária, não tendo um impacto duradouro sobre a esfera real da economia. Desse modo, a moeda possui um papel secundário na determinação do nível de produto, quaisquer que sejam os efeitos causados, por exemplo, por uma ilusão monetária.
Inflação determinada pela demanda: segundo as características do RMI, embora não haja uma negação explícita da existência de pressões inflacionárias oriundas do lado dos custos dos fatores produtivos, o foco do NCM é no combate à inflação de demanda via política monetária. Desta forma, as pressões do lado da oferta podem ter relevância em alguns momentos esporádicos, mas o cerne do problema é a inflação oriunda de um excesso de produto em relação ao produto natural ou potencial da economia. 
Taxa natural de juros: a regra de Taylor utiliza o conceito de taxa natural de juros e a diferença entre esta e a taxa corrente como um dos fatores para a orientação da política monetária. Conforme um dos elementos básicos da definição de RMI, economias com metas inflacionárias não podem ter um governo que gaste mais do que arrecada, pois esse comportamento suscitaria alguma forma de financiamento dos gastos por meio de dívida ou de emissão de moeda e o resultado, sob enfoque da equivalência ricardiana, provocaria a inflação. Isso acontece, pois o déficit do governo, seja ele financiado por meio de dívida ou de emissão de moeda, gera um aumento excessivo da demanda agregada que aumenta apenas o nível de preços.



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